A Rolha de Poço: Como Davi Alcolumbre Engaveta o Brasil
By Hotspotnews
No imaginário popular brasileiro, a expressão “rolha de poço” é reservada para quem segura tudo, tapa o fluxo e impede que qualquer coisa suba à superfície. Não poderia haver apelido mais preciso para descrever o papel que o senador Davi Alcolumbre vem desempenhando na presidência do Senado Federal desde fevereiro de 2025.
Enquanto o país assiste a uma sequência interminável de denúncias graves contra ministros do Supremo Tribunal Federal – censura, abuso de autoridade, suspeitas de advocacia administrativa, interferência indevida em investigações –, Alcolumbre mantém firme a tampa. Mais de 80 pedidos de impeachment contra membros da Corte repousam em sua mesa, muitos deles com número de assinaturas suficiente para pelo menos iniciar o processo. Só contra o ministro Alexandre de Moraes são mais de 40. Nenhum deles avança.
A estratégia é simples e eficaz: receber o pedido com cara séria, anunciar que vai “analisar com calma”, falar em “falta de justa causa” ou simplesmente deixar o documento mofar na gaveta. O tempo passa, o noticiário muda de foco, a indignação popular esfria e o assunto morre. Quando a pressão aumenta, surge uma declaração genérica sobre “respeito às instituições” e “equilíbrio entre os poderes”. Pronto: rolha recolocada.
O caso mais recente ilustra perfeitamente o mecanismo. Em dezembro de 2025, no meio do recesso parlamentar, um grupo de deputados interrompeu as férias para protocolar mais um pedido de impeachment contra Moraes, desta vez ancorado nas denúncias envolvendo o Banco Master – contrato milionário do escritório da esposa do ministro, reuniões suspeitas com autoridades do Banco Central, intervenção atípica do STF em processo administrativo. A oposição fez coletiva no Salão Verde, discursos inflamados, transmissão ao vivo. Tudo muito bonito. Mas todo mundo já sabia o destino: a mesa de Davi Alcolumbre.
Lá, o pedido se juntou aos outros. Nenhuma audiência marcada, nenhuma comissão instalada, nenhuma votação prevista. Silêncio absoluto. Rolha no lugar.
O resultado prático é devastador. Quando um poder da República consegue blindar a si mesmo de qualquer controle externo, o sistema de freios e contrapesos desaba. A mensagem que chega à população é clara: para alguns, a lei não vale. Para outros, vale dobrada. A confiança nas instituições evapora, o investimento estrangeiro hesita, e o brasileiro comum paga a conta – seja com impostos que cobrem rombos bilionários de bancos falidos, seja com a sensação permanente de que nada muda.
Davi Alcolumbre não age sozinho, claro. Ele reflete um pacto tácito entre partes significativas do establishment político que prefere a estabilidade aparente à correção de rumos. Mas é ele quem executa o serviço sujo: o homem da rolha. Enquanto ela permanecer no lugar, pouco importa quantas coletivas sejam marcadas, quantos discursos sejam feitos ou quantas provas venham à tona. O poço continua fechado.
O Brasil, infelizmente, continua na mão.


