INFO: NOVAS REGRAS PARA US VISA
A partir de 1º de outubro de 2026, os Estados Unidos passam a exigir que solicitantes de três categorias adicionais de visto de não imigrante deixem seus perfis nas redes sociais públicos. A Embaixada dos EUA no Brasil destacou a mudança em 30 de setembro, repetindo a mensagem do Departamento de Estado: toda decisão sobre um visto é tratada como uma decisão de segurança nacional. A regra vale para o visto I, destinado a representantes da imprensa estrangeira; o visto TN, para profissionais qualificados no âmbito do acordo Estados Unidos-México-Canadá; e o visto TD, para dependentes elegíveis desses profissionais.
Os solicitantes dessas categorias devem configurar todos os perfis de redes sociais como “públicos” ou “abertos”, para que os oficiais consulares possam analisar a presença online durante a triagem. A orientação não se limita a uma única plataforma. Na prática, pode incluir Facebook, Instagram, X, LinkedIn, YouTube, TikTok e outras contas que façam parte da identidade digital do candidato. A exigência se aplica a quem tiver entrevista consular em 1º de outubro ou depois, inclusive em processos já protocolados ou agendados antes do anúncio.
A justificativa oficial é a verificação de identidade e de admissibilidade. O Departamento de Estado afirma que usa todas as fontes disponíveis para identificar solicitantes que possam ser inadmissíveis, inclusive pessoas que representem risco à segurança nacional ou à segurança pública. Os oficiais também usam essa revisão para avaliar se o candidato consegue demonstrar, de forma crível, que preenche os requisitos do visto pedido e que pretende cumprir as condições de entrada. Washington trata o visto como um privilégio concedido a critério do governo, e não como um direito. Essa é a base da política: o governo quer uma visão mais clara das declarações públicas, das afiliações, das informações profissionais e de possíveis inconsistências antes de decidir se emite o documento.
Não se trata de um programa novo, e sim da expansão de uma revisão de presença online que vem sendo aplicada em etapas. Estudantes e participantes de intercâmbio entraram primeiro, em meados de 2025. Trabalhadores H-1B e certos dependentes vieram depois. Em março de 2026, outras classificações foram incluídas, entre elas alguns empregados de missões diplomáticas, trabalhadores religiosos, vistos de noivo e categorias humanitárias. Agora entram I, TN e TD. O governo apresenta a medida como consistência: o mesmo padrão rigoroso aplicado a um número maior de categorias.
As consequências não serão iguais para todos.
Para jornalistas com visto I, a mudança é especialmente sensível. Correspondentes estrangeiros usam redes sociais como parte do trabalho. Publicações, comentários, entrevistas e redes profissionais fazem parte de como eles reportam e de como são conhecidos. Tornar esses perfis um elemento formal da análise de visto pode gerar efeito inibidor. Defensores da liberdade de imprensa argumentam que jornalistas podem suavizar críticas, evitar certos temas ou reduzir comentários públicos se acreditarem que uma postagem pode ser lida como hostilidade aos Estados Unidos ou como ameaça a interesses americanos. Isso não significa que toda reportagem crítica ou opinião política leve automaticamente à recusa. Significa que a fala profissional fica mais atrelada à triagem imigratória.
Para profissionais TN e dependentes TD, o risco costuma estar menos na opinião política e mais na coerência das informações. Os oficiais podem comparar perfis públicos com o formulário DS-160, cartas do empregador, cargos e a ocupação alegada no acordo comercial. Um histórico no LinkedIn que não coincide com a profissão declarada, lacunas sem explicação ou dados conflitantes sobre o empregador podem gerar perguntas extras. Canadenses que normalmente pedem admissão TN na fronteira podem sentir o impacto de forma menos imediata, porque o anúncio se dirige ao processamento consular. Mexicanos, que em geral precisam de visto TN no consulado, e familiares não canadenses que pedem TD ficam mais expostos.
Atrasos são uma consequência prática. Advogados de imigração esperam que material online considerado negativo ou confuso leve a processamento administrativo adicional. Isso pode adiar entrevistas, a emissão do visto, a data de início do trabalho e viagens familiares. Empresas que enviam profissionais mexicanos, organizações de mídia que rotacionam correspondentes e famílias que coordenam pedidos TD podem precisar de mais margem de tempo. Deixar o perfil público não garante aprovação, e mantê-lo privado não configura, por si só, fraude. Ignorar a instrução, porém, pode provocar mais escrutínio e a impressão de que o candidato tenta evitar a revisão.
Os efeitos sobre privacidade e liberdade de expressão vão além do solicitante. Configurações públicas expõem não só postagens, mas também redes de contatos, curtidas, comentários, fotos e associações. Grupos de liberdades civis argumentam que esse tipo de revisão pode desestimular o debate político, a expressão religiosa e o contato com causas controversas. Amigos, colegas e fontes ligados ao candidato também podem ficar mais cautelosos. Para jornalistas, isso pode afetar a apuração. Para profissionais, pode afetar a forma como apresentam o histórico de carreira. Apagar ou reescrever publicações verdadeiras para escondê-las costuma ser visto como pior do que deixá-las visíveis, porque o ocultamento em si pode gerar dúvida sobre credibilidade.
Há limites no que o anúncio esclarece. Ele não publica uma lista de palavras-chave, um sistema de pontuação ou um catálogo de postagens que levam à recusa. Também não diz, com clareza, o que ocorre se o candidato se recusar a abrir todas as contas. E não estende automaticamente a mesma exigência a vistos de turismo nem a toda admissão TN de canadenses na fronteira. Essas lacunas deixam solicitantes e empregadores planejando em meio à incerteza.
Quem defende a política vê uma lógica de segurança direta: as redes sociais hoje são um dos registros públicos mais reveladores que um candidato deixa, e governos já as usam para testar identidade, intenção e risco. Críticos veem uma mudança mais ampla, em que o acesso aos Estados Unidos depende não só de documentos e entrevistas, mas de uma vida digital pesquisável. Para solicitantes de I, TN e TD a partir de 1º de outubro, essa vida digital precisa estar aberta se quiserem seguir o processo consular conforme a instrução oficial.


